Presumo, que muitas pessoas aprovam que o melhor sentimento de uma vida é o amor. Eu sou uma delas! O mais árduo de conquistar e conservar, e para os não correspondidos, o mais difícil de superar e esquecer. Porém, é o sentimento mais complexo para ser definido por palavras.
Hoje, fruí do aprazimento de conhecer o senhor António Manuel que me presenteou a sua história de amor, a mais admirável que retenho até á data.
Encontrava-me sentado num banco a rabiscar num pequeno pedaço de papel, quando me apercebi da aproximação de um senhor de idade que acabou por se sentar mesmo ao meu lado.
— Boa tarde! — Disse o senhor num tom penoso.
Educadamente, retorqui com as mesmas palavras num ar mais alegre.
O senhor assentou a bengala sobre os joelhos, soprou calorosamente para as mãos, enquanto uma massajava a outra e de seguida aconchegou a gola do seu casaco.
— Estes dias frios… conseguem congelar mais a minha alma!
Depositei toda a minha atenção no senhor e de imediato percebi que as suas palavras reflectiam-se perante o seu olhar sorumbático.
— Ao menos o Sol perdura com o seu brilho, dando-nos uma oportunidade de continuar a sorrir! — Disse-lhe, numa tentativa de atenuar o seu espírito consternado.
— Eu já perdi o meu sorriso há cinquenta anos!
Naquele instante percebi que algo delicado estava aprisionado na sua mente.
— Casou-se? — Perguntei, enquanto fazia uma careta aparvalhada aplicando um brando toque de cotovelo no seu braço, procurando um sorriso no seu rosto.
— Não meu rapaz. Amei! — Respondeu com austeridade.
Agora sim, uma conversa que poderá ter valor para mim, pensei. Após aquela pergunta falhada, procurei saber um pouco mais da sua história adoptando uma postura cuidada.
— Isso é óptimo! — Afirmei, guardando no bolso a caneta e o pedaço de papel que ainda retinha na mão, presenteando-lhe toda a minha atenção.
— Tinha eu vinte e três anos quando a conheci… que mulher perfeita! Foi o único amor de toda a minha vida. — Recordava o senhor, com uma chama reluzente no olhar.
— Mas isso é muito positivo. Nos dias de hoje o amor parece ter outro sabor.
— Nunca lho disse! — Disparou o senhor, deixando-me surpreendido. Não houve palavra alguma que me ocorresse naquele instante. — Cinquenta anos de amor por ela e nunca tive coragem de lho dizer uma única vez. — Acrescentou.
— O que aconteceu? — Perguntei numa inocência sensibilizada.
— A mulher que eu amei, casou-se, teve quatro belos filhos e estes conceberam-lhe sete netos. Há cerca de um mês, faleceu proveniente de um cancro uterino. Contudo, uma semana antes da sua partida, com o mesmo sorriso de sempre, agarrou-me na mão e disse: “António Manuel, se tivesse a oportunidade de refazer a minha vida, fazia-o contigo. Digo-o com o maior respeito e amor pelo meu marido, filhos e netos, mas tu, António… nunca tive a coragem para dizer o amor que sempre tive por ti.”
Durante uns segundos, permaneci num silêncio sofrido pelo sentimento que detive.
— Demorei uma vida inteira para perceber que não deveria ter perdido a coragem… — Declarou o senhor, e num acto inesperado, segurou de novo na sua bengala e ergueu-se brindando-me um leve sorriso. — Nunca tenhas o receio de admitir o que sentes, é o conselho que um velho te pode dar. Obrigado por este… “calor” numa altura tão fria!
Daniel Filipe O. Branco
Oliveirinha


Tens noção que estou no trabalho, sentada com os meus quatro olhos postos no ecrã, com uma lágrima no canto do olho? É tão verdade. Que palavras tocantes, vindas de um velhote cheio de experiência e sabedoria. Parabéns pelo "calor numa altura tão fria". Realmente tens o coração quente e conseguiste aquecer o senhor e ele por-te a pensar lol. Muito tocante... Parabéns. Queria escrever mais mas não posso... e bem, digamos que não convém estar para aqui a verter água hehehe. Assim que tiver oportunidade venho aqui comentar as palavras em si. Beijinhos, Maria
ResponderEliminarBem, agora que já estou em hora de almoço, com as portinhas fechadas, luzes apagadas e sem o telefone a tocar constantemente já posso verter água lol. Vou-te colocar uma questão, preferes a dor de um amor não vivido, devido à falta de palavras ou não vivido, por causa das palavras? Eu penso que devemos arriscar e seguir o caminho que o coração nos manda, mas acho que devemos seguir a cabecinha também... Nem sempre o coração está certo. Por vezes confunde as coisas. Ás vezes não vemos com olhos de ver. Com o coração passa-se o mesmo. Ou então, somos nós que não temos inteligência suficiente para distinguir os sentimentos. Ou demonstrá-los. Cada um de nós, age de determinada maneira, a mesma situação gera comportamentos diferentes, em cada um de nós. Ou seja, ás vezes no coração é uma misturada de sentimentos. Uma autêntica turbulência de sentimentos... Será que vale a pena arriscar e agir nestas circunstâncias? Pois. Nunca é tarde mas também nunca é cedo demais :) Ok... vou parar, estou a ficar lamechas e confusa ao mesmo tempo. Já fui buscar uma maçãzita para ver se a conversa ficava mais doce mas está uma confusão autêntica! LOL desculpa lá. Basicamente o que te queria dizer era que, foste um bom ouvinte. Provavelmente outra pessoa afastava-se ou achava que era um maluco. Infelizmente vivemos numa sociedade, em que se vê alguém a ler um livro no banco, acham logo que ou é pedinte ou é anti-social....
ResponderEliminarLindo.
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