sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um sentimento amargurado...

Uma única palavra tua, e o céu clareava, a chuva parava, a minha dor atenuava, o meu sorriso te dava, e a ti...eu me entregava! Mas tu... continuas sem querer ver-me e preferes não me dizer... nada!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O novo olhar de uma... simples vida!


Em certo dia da minha vida, daqueles em que eu considero “difícil”, forcei um suspiro e fortaleci o meu infeliz pensamento de que ainda faltavam umas quantas horas para picar o ponto. Era o sexto dia consecutivo que trabalhava, e na minha cabeça apenas perdurava a ideia de que a minha vida era deveras maçadora; o mesmo trabalho, as mesmas tarefas, as mesmas pessoas e até as estradas do caminho para casa se mantinham iguais. Um cenário amargurado para quem vive derrotado pela rotina!
                Foi então que tudo mudou…
                De braços cruzados sobre o balcão, com o olhar pregado sobre a calçada molhada, apercebi-me da chegada de um veículo. Uma senhora saiu pela porta do condutor, e a querer fugir à chuva, apressou-se a retirar a cadeira de rodas que se encontrava no porta bagagens. Para meu espanto, o “dono” daquela cadeira, era o João, um rapaz com a minha idade.
                — Olá, muito boa tarde! — Disse eu sorrindo, exercendo a simpatia que me competia como empregador de loja.
                A senhora retorquiu o sorriso e quando observei com atenção para o rapaz, apercebi-me que não tinha os braços. Desejando não transmitir aquele sentimento de “pena”, persisti com o sorriso simpático, mas não consegui evitar, olhei soturnamente para o jovem.
                — Olá Daniel — Disse o João, deixando-me atónito ao saber o meu nome.
                Com um aceno de cabeça, redireccionou o seu olhar para a minha identificação, tranquilizando dessa forma a minha perplexidade.
                Cinco minutos mais tarde, após realizar as tarefas necessárias, tive uma das melhores experiências da minha vida.
                — Muito obrigado! — Disse eu, novamente com o sorriso desenhado no rosto.
                — Obrigado eu, muito boa tarde — Respondeu a senhora.
                — Daniel… o que vais fazer quando formos embora? — Perguntou o rapaz.
                Surpreendido, olhei para o rapaz franzindo o sobrolho, voltando o olhar para a senhora que continuava com o sorriso ténue. Sem me dar tempo para responder, prosseguiu:
                — Vais tornar a debruçar-te sobre o balcão esperando por outro cliente, olhando para o relógio de cinco em cinco minutos até chegar a tua hora?
                Agora é que eu não conseguia dizer nada, por instantes interpretei tudo como uma afronta. Mas tudo era verdade…
                — A vida é demasiado curta e já te sentes perdido, sem esperança de um melhor amanhã e desertado de confiança… — Continuou o João, deixando-me cada vez mais azedado.
                — Não, não é nada disso. — Respondi, defendendo-me.
                — Tens sonhos Daniel?
                — Tenho sim, desejo um dia em ser escritor.
                — Então porque desistes assim da vida? Achas que os desafios são maiores para as tuas capacidades? Se tens dois braços, duas mãos e uma cabeça para pensar, então és capaz de escrever o que quiseres; se podes caminhar, conseguirás ir aos locais que mais gostas; poderás frequentar um bar e dançar a música que te move, mas sobretudo, podes amar e dar a essa pessoa um forte abraço.
                Neste momento, senti um arrepio a passar-me pelo corpo. Estava sem palavras.
                — O acidente afastou-me dos sonhos, a capacidade de andar e de poder abraçar o mundo. Antes que a vida te retire isso, não deixes de lutar por aquilo que ambicionas. O meu nome é João, e espero um dia ouvir falar de ti. — Concluiu o João, retirando-se do estabelecimento junto da senhora do sorriso delicado.
                Desde então, agradeço o trabalho que mantenho, as tarefas que realizo, as pessoas com quem convivo e até o constante caminho para casa interpreto como uma oportunidade.
                Obrigado João, por me teres mostrado o verdadeiro sentido da vida!

Daniel Filipe. O. Branco
Oliveirinha - Aveiro