segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A Luxúria da Simplicidade


Por vezes, os melhores presentes que a vida nos concede, surgem das coisas e dos gestos mais simples. Para agradar um colega, um amigo ou um familiar, um toque de carinho, amizade e amor, torna tudo muito mais intenso e memorável.
          O sol escondia-se no horizonte, tímido, e as estrelas pareciam cintilar cada vez mais á medida que o céu escurecia. O relógio apontava para as dezoito horas e como me sentia faminto, entrei numa pastelaria que se achava ali por perto.
          Sentei-me numa mesa a ler o jornal enquanto me nutria quando, ao fim de alguns minutos, apercebi-me de uma conversação ostentosa que decorria entre dois senhores que se encontravam na mesa ao lado.
          — Nas férias, levei a minha esposa a um dos melhores hotéis de cinco estrelas em Atenas. — Declarou o senhor, num tom de excelência.
          — Atenas? — Inquiriu o amigo surpreso. — Atenas é para tesos! Eu estive em Dubai, num hotel esplendoroso.
          Dei por mim numa expressão aparvalhada perante a forma tão depreciada e superiorizada do seu amigo. Depois de uma disputa sobre os melhores hotéis que os dois já visitaram, o tema da conversa alterou-se.
          — Tens de ver o meu carro novo. Fui a Itália de propósito para o comprar.
          — Compraste carro novo? Que coincidência, ainda na semana passada fui buscar o meu à Alemanha.
          Num espaço de tempo muito reduzido, compreendi que o que aquelas pessoas tinham de pobre era sem dúvida o espírito e a consciência da realidade em que vivemos. Desviei o meu olhar, e não muito distante, avistei outro senhor que parecia estar tão enfadado da conversa quanto eu.
          — É verdade, tenho que te aconselhar um restaurante em Barcelona, onde servem o melhor marisco que eu já comi em toda a minha vida.
          — Estava a pensar em levar a minha esposa a um jantar romântico, acho que vou aproveitar a sugestão.
          O senhor que também atentava a conversa, após pagar os seus consumos, dirigiu-se à mesa dos dois amigos e numa expressão seriamente aplicada disse:
          — Nas minhas férias, levei a minha mulher no nosso carro que já tem os seus vinte anos até à praia da Barra, olhem, cinco estrelas! Depois, naquela esplanada, onde servem uns óptimos tremoços acompanhados de uma mini gelada… Ui! As melhores férias da minha vida. — Gracejou o senhor, enquanto se brindava pelo contemplar embasbacado dos dois amigos. — Meus senhores, com todo o respeito, permitem-me que vos diga… O verdadeiro valor da vida, não está nos hotéis de cinco ou mais estrelas, nos carros topo de gama ou até mesmo nos melhores restaurantes do mundo. Seja luxuoso ou simples, o que importa é a intensidade do sentimento que partilham com a outra pessoa, pois estas são as melhores recordações que uma vida pode ter.
          Naquele instante, até os donos da pastelaria tentaram camuflar o sorriso. Natural que os dois amigos sentiram-se ressentidos, mas antes que fruíssem do tempo para contestar, o senhor acrescentou:
          — A vida oferece-nos coisas que nem o dinheiro consegue comprar. — Disse, enquanto se virava para a porta de saída do estabelecimento. — O resto de um bom dia e… não se preocupem com o vosso consumo, acabou de ser pago!



domingo, 2 de janeiro de 2011

A dor de um Amor não vivido...



Presumo, que muitas pessoas aprovam que o melhor sentimento de uma vida é o amor. Eu sou uma delas! O mais árduo de conquistar e conservar, e para os não correspondidos, o mais difícil de superar e esquecer. Porém, é o sentimento mais complexo para ser definido por palavras.
Hoje, fruí do aprazimento de conhecer o senhor António Manuel que me presenteou a sua história de amor, a mais admirável que retenho até á data.
Encontrava-me sentado num banco a rabiscar num pequeno pedaço de papel, quando me apercebi da aproximação de um senhor de idade que acabou por se sentar mesmo ao meu lado.
— Boa tarde! — Disse o senhor num tom penoso.
Educadamente, retorqui com as mesmas palavras num ar mais alegre.
O senhor assentou a bengala sobre os joelhos, soprou calorosamente para as mãos, enquanto uma massajava a outra e de seguida aconchegou a gola do seu casaco.
— Estes dias frios… conseguem congelar mais a minha alma!
Depositei toda a minha atenção no senhor e de imediato percebi que as suas palavras reflectiam-se perante o seu olhar sorumbático.
— Ao menos o Sol perdura com o seu brilho, dando-nos uma oportunidade de continuar a sorrir! — Disse-lhe, numa tentativa de atenuar o seu espírito consternado.
— Eu já perdi o meu sorriso há cinquenta anos!
Naquele instante percebi que algo delicado estava aprisionado na sua mente.
— Casou-se? — Perguntei, enquanto fazia uma careta aparvalhada aplicando um brando toque de cotovelo no seu braço, procurando um sorriso no seu rosto.
— Não meu rapaz. Amei! — Respondeu com austeridade.
Agora sim, uma conversa que poderá ter valor para mim, pensei. Após aquela pergunta falhada, procurei saber um pouco mais da sua história adoptando uma postura cuidada.
— Isso é óptimo! — Afirmei, guardando no bolso a caneta e o pedaço de papel que ainda retinha na mão, presenteando-lhe toda a minha atenção.
— Tinha eu vinte e três anos quando a conheci… que mulher perfeita! Foi o único amor de toda a minha vida. — Recordava o senhor, com uma chama reluzente no olhar.
— Mas isso é muito positivo. Nos dias de hoje o amor parece ter outro sabor.
— Nunca lho disse! — Disparou o senhor, deixando-me surpreendido. Não houve palavra alguma que me ocorresse naquele instante. — Cinquenta anos de amor por ela e nunca tive coragem de lho dizer uma única vez. — Acrescentou.
— O que aconteceu? — Perguntei numa inocência sensibilizada.
— A mulher que eu amei, casou-se, teve quatro belos filhos e estes conceberam-lhe sete netos. Há cerca de um mês, faleceu proveniente de um cancro uterino. Contudo, uma semana antes da sua partida, com o mesmo sorriso de sempre, agarrou-me na mão e disse: “António Manuel, se tivesse a oportunidade de refazer a minha vida, fazia-o contigo. Digo-o com o maior respeito e amor pelo meu marido, filhos e netos, mas tu, António… nunca tive a coragem para dizer o amor que sempre tive por ti.”
Durante uns segundos, permaneci num silêncio sofrido pelo sentimento que detive.
— Demorei uma vida inteira para perceber que não deveria ter perdido a coragem… — Declarou o senhor, e num acto inesperado, segurou de novo na sua bengala e ergueu-se brindando-me um leve sorriso. — Nunca tenhas o receio de admitir o que sentes, é o conselho que um velho te pode dar. Obrigado por este… “calor” numa altura tão fria!



Daniel Filipe O. Branco
Oliveirinha


sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um sentimento amargurado...

Uma única palavra tua, e o céu clareava, a chuva parava, a minha dor atenuava, o meu sorriso te dava, e a ti...eu me entregava! Mas tu... continuas sem querer ver-me e preferes não me dizer... nada!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O novo olhar de uma... simples vida!


Em certo dia da minha vida, daqueles em que eu considero “difícil”, forcei um suspiro e fortaleci o meu infeliz pensamento de que ainda faltavam umas quantas horas para picar o ponto. Era o sexto dia consecutivo que trabalhava, e na minha cabeça apenas perdurava a ideia de que a minha vida era deveras maçadora; o mesmo trabalho, as mesmas tarefas, as mesmas pessoas e até as estradas do caminho para casa se mantinham iguais. Um cenário amargurado para quem vive derrotado pela rotina!
                Foi então que tudo mudou…
                De braços cruzados sobre o balcão, com o olhar pregado sobre a calçada molhada, apercebi-me da chegada de um veículo. Uma senhora saiu pela porta do condutor, e a querer fugir à chuva, apressou-se a retirar a cadeira de rodas que se encontrava no porta bagagens. Para meu espanto, o “dono” daquela cadeira, era o João, um rapaz com a minha idade.
                — Olá, muito boa tarde! — Disse eu sorrindo, exercendo a simpatia que me competia como empregador de loja.
                A senhora retorquiu o sorriso e quando observei com atenção para o rapaz, apercebi-me que não tinha os braços. Desejando não transmitir aquele sentimento de “pena”, persisti com o sorriso simpático, mas não consegui evitar, olhei soturnamente para o jovem.
                — Olá Daniel — Disse o João, deixando-me atónito ao saber o meu nome.
                Com um aceno de cabeça, redireccionou o seu olhar para a minha identificação, tranquilizando dessa forma a minha perplexidade.
                Cinco minutos mais tarde, após realizar as tarefas necessárias, tive uma das melhores experiências da minha vida.
                — Muito obrigado! — Disse eu, novamente com o sorriso desenhado no rosto.
                — Obrigado eu, muito boa tarde — Respondeu a senhora.
                — Daniel… o que vais fazer quando formos embora? — Perguntou o rapaz.
                Surpreendido, olhei para o rapaz franzindo o sobrolho, voltando o olhar para a senhora que continuava com o sorriso ténue. Sem me dar tempo para responder, prosseguiu:
                — Vais tornar a debruçar-te sobre o balcão esperando por outro cliente, olhando para o relógio de cinco em cinco minutos até chegar a tua hora?
                Agora é que eu não conseguia dizer nada, por instantes interpretei tudo como uma afronta. Mas tudo era verdade…
                — A vida é demasiado curta e já te sentes perdido, sem esperança de um melhor amanhã e desertado de confiança… — Continuou o João, deixando-me cada vez mais azedado.
                — Não, não é nada disso. — Respondi, defendendo-me.
                — Tens sonhos Daniel?
                — Tenho sim, desejo um dia em ser escritor.
                — Então porque desistes assim da vida? Achas que os desafios são maiores para as tuas capacidades? Se tens dois braços, duas mãos e uma cabeça para pensar, então és capaz de escrever o que quiseres; se podes caminhar, conseguirás ir aos locais que mais gostas; poderás frequentar um bar e dançar a música que te move, mas sobretudo, podes amar e dar a essa pessoa um forte abraço.
                Neste momento, senti um arrepio a passar-me pelo corpo. Estava sem palavras.
                — O acidente afastou-me dos sonhos, a capacidade de andar e de poder abraçar o mundo. Antes que a vida te retire isso, não deixes de lutar por aquilo que ambicionas. O meu nome é João, e espero um dia ouvir falar de ti. — Concluiu o João, retirando-se do estabelecimento junto da senhora do sorriso delicado.
                Desde então, agradeço o trabalho que mantenho, as tarefas que realizo, as pessoas com quem convivo e até o constante caminho para casa interpreto como uma oportunidade.
                Obrigado João, por me teres mostrado o verdadeiro sentido da vida!

Daniel Filipe. O. Branco
Oliveirinha - Aveiro